sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Café e dois

Chovia. Uma garoa fina, mas gelada. Segurava uma embalagem de café quente, essas da Starbucks, que chegava a molhar suas duas mãos com o suor do calor do líquido.
Marcava 17 horas. Os números digitais dos minutos do relógio no meio da avenida estavam quebrados. Era 17 e pouco. O céu estava numa total brancura, nuvens cheias de água que caiam sorrateiramente na cidade.
Ela sentada em frete a paulista. Em baixo do Masp,de frente para a paulista.
Os pés irrequietos não paravam de encostar o chão e levantar em um movimento repetitivo.Exatos 123 sobe e desce por minuto. Nitidamente nervosa.
Virou um longo gole de café quente na garganta, o vento agora era gelado. Cortava a pequena multidão de pessoas e rostos desconhecidos que passavam na calçada, todos bem acelerados. Quase fim de expediente, a resposta para a movimentação.

Ele não chega. Será que aconteceu alguma coisa? Está atrasado. Ligo no celular? Melhor esperar, vou parecer neurótica. Essa cidade é tão violenta. Será que aconteceu algo? Porra. Melhor esperar. Ele deve estar chegando.

Só restava um dedo do gosto forte e preto dentro do copo de isopor, que ela olhava fixamente quando viu outros dedos encostando em seus.

- Desculpa, demorei, cê sabe, o trânsito tá foda, chuva e tempo frio congestionam tudo.
- Não, sem problemas, cheguei há pouco. ( Merda, odeio dar uma de “tá tudo certo”).
- Deu um problema na redação, não acharam que as fotos que eu fiz iriam ficar boas na matéria do Domingos, disseram que não ilustrava a emoção do fato. Meu, dane-se, para mim ficou ótimo, o máximo que eu pude fazer, eu não sou o jornalista, quem tem que botar a emoção é o Domingos, ele que escreve. Fiz o trampo e ainda me fodo. Povo escroto, e ficou massa a foto, olha que eu entendo.
- Beleza, sério, não esperei muito.
- O suficiente par terminar um café?
- Não, vim tomando no caminho, terminei aqui. (Novamente “tá tudo certo”).
-Tá a pé? Com essa chuva?
-Tô sem carro hoje, achei que o tempo ia melhorar, mas tenho um guarda-chuva.
- Você disse que queria me ver, que era importante. Que aconteceu?
- Henrique, vou ser direta.
- Fala.
- Acabou, não dá mais.
- Sério?
- Sério.
Ele olha os automóveis que aceleram devagar em meio a uma avenida quase parada na fila de buzinas e vidros fechados.
- Eu devia ter percebido antes, que você estava querendo terminar comigo.
- Não ia adiantar perceber nada.
- Poderia ter feito diferente.
- O quê? Não dá para mudar.
- Sei lá, pô eu te amo Ana.
- Mas não dá, não quero.
- Eu te amo. (Ele coloca sua mão cuidadosamente sobre o seu joelho em cima de jeans azul com cara de gasto. O preferido dela).
- Não dá.
Os dois como dois corpos físicos estranhos no mesmo lugar, nem se olham. Silêncio. Henrique levanta do banco, com o olhar quase hipnotizado nos inúmeros veículos, leva os olhos para o chão, vê seu tênis branco com detalhes em couro ainda molhado desde que saiu do carro e deu com o pé numa poça estrategicamente ao lado da porta do motorista.
Fez uma pausa, mirou o rosto de Ana.
- É isso?
- É, certeza.
- Beleza. Depois peço para alguém deixar na sua casa suas roupas e sua caneca que estão comigo.
- Acho que deixei um perfume perto da luminária na bancada da pia do banheiro, vê se ficou lá. Meu cd do Bowie tá com você também.
- Meus dvd’s e minha caixa do Coppola estão no seu apartamento, depois eu pego. Aliás, vou precisar de um desses dvd’s na aula de semiótica do mestrado.
- Eu deixo ainda essa semana na portaria.
- Beleza, vou indo.

Ele vira de costas, num gesto protetor junta as mãos como no formato de uma concha, para acender o cigarro que estava no bolso. O vento não entregava o jogo, na quarta tentativa acendeu. Quando já ia dando alguns passos, sem nem olhar para trás, escutou:
- Henrique.
Voltou sua cabeça na direção da voz doce e feminina.
- Me empresta o fogo.


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Passo a madrugada a escutar tango, como é bom. Buenos Aires como te gusto! Almoço entre amigos, quer coisa melhor? A de Recife, a do teatro e a doce flor. Ainda dois reencontros saudosos e outro abraço apertado de “ Quanto tempo, vamos marcar algo”, no meio do caminho.
Adoro amigos e conversas é tão bom se dar bem com pessoas amadas. Amigos, como eu gosto.

Tô na fase mpb e tango, aumenta o som que quero bandoneón e violão bem alto.

Amigos, amo.

Jukebox: O Bêbado e a equilibrista – Elis Regina

J.M



Poesia de concreto




De cada calçada de concreto da cidade
cada viga que se ergue
cada vida que se segue
cada cidadão persegue a sua cóta lutando pra se manter
marcando a mesma rota lutando pra nunca se perder
pra não perder não ver a cara da derrota estampada na lorota
que faz ponto a cada esquina encostada em algum poste
pronta pra te desviar da sorte
talvez um corte brusco na sua sina
existem uns que seguem na rotina e não enxergam ao redor
reclama e não se posta pra tornar melhor
acha melhor sobreviver só mantendo distância
de cada sonho que crescia na infância
e cada esperança de criança se mistura ao ar impuro inspirado e espirado,

por cada cidadão comum que deixa escorrer a liberdade
na sargeta da calçada de concreto da cidade.
.....
Dedicada, a cada, poeta da cidade, dedicada, a cada, atleta da
cidade, dedicada a cada ser humano da cidade que cultiva a
liberdade no concreto da cidade.

Entre as paredes de concreto da cidade, se esconde o mundo
de quem faz qualquer negócio só pra não ser taxado de vagabundo
sonhos de adultos se decipam por segundo a cada insulto do patrão
é o culto do faz de conta que eu sou feliz assim
salário no fim do mês é o que conta paga as contas e faz bem pra mim
não é o caso em que eu me encaixo
sonho alto de mais pra viver por baixo igual capacho
e acho que existem outros por aí
que olham pras paredes só pensando em demolir
pra ser livre, mas na real nem sabe como
perdeu toda noção acustumado a viver com dono
não condeno, mas não concordo e não me adapto
fora das paredes mais inspiração eu capto
me sinto apto pra cantar a liberdade
que se esconde entre as paredes de concreto da cidade.
....
Algum teto de concreto da cidade, abriga o restante
da liberdade semelhante a que escorreu pela sargeta da calçada
se escondeu entre as paredes ou partiu pra outra
morreu de fome, frio, sede
pois sem abrigo não há, pra onde voltar
pra poder descansar e pensar
na estratégia pra continuar lutando pra manter a liberdade que se tem
as adversidades não se sabe
de onde elas vem que cara elas tem
pelas mãos de quem vem com ordem de quem alguém me diz
porque eu não posso ser feliz completamente
sem que alguém ou algo tente, tumultuar minha mente
mas eu sigo em frente sempre,
vou nadando mesmo que seja contra a corrente
pra que eu possa construir meu verso meu abrigo, meu teto
pra fazer minha versão da poesia de concreto.
______________________
Instituto Coletivo e Kamau

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Musas



Sim, eu tenho as minhas musas. Explicando melhor: quando eu conheço alguma coisa, pode ser artista, músico, cantora, escritor, atriz, pintor, e se eu gosto do que vejo, ou qualquer efeito que me faça aguçar algum dos sentidos, eu tenho a minha fase “obsessão”.
Assim, se eu gosto, por exemplo, de uma cantora X, ela não precisa ser nova na cena, mas se me chamou a atenção de uma forma peculiar eu vou tentar descobrir tudo dela. Quantos cd’s lançou, assisto entrevistas, baixo as músicas novas, leio a respeito, vou aos shows, quero saber de onde veio, quem são os músicos que a acompanham, tem biografia? Site oficial? Ah, melhor ainda. Fico obcecada mesmo, e geralmente dura, um, dois meses, sugo tudo que dá para sugar de informação, falo para todos os meus amigos do meu novo “achado” e pronto, chega a calmaria e paixão passa, não que eu pare de gostar, não. Simplesmente a euforia dá um tempo. Acho muito engraçado.
Já tive obsessões por escritores (Saramago, Suassuna, Vinícius , Neruda e principalmente García Márquez entraram nessa), em querer ler toda a sua obra completa, e se não cheguei a terminar foi pelo enjoo ( bom) de suas escritas. A obsessão cansa também. Uma que foi no mínimo curiosa foi a pelo Gael García, o ator mexicano.
Até o ano de 2006, juro, acho que assisti todos os filmes, toscos e bons que saíram com o galã de olhos verdes, dentes charmosamente tortos e rosto bonito. Quando chegava na locadora o atendente me olhava e dizia “- Gael García ,né?”. Nossa, que louca.


Na música vive acontecendo, mas é uma obsessão saudável, culturalmente necessária na formação do conhecimento intelectual. Muito boa essa.
Bom, digo que tenho as minhas musas pois tem a confraria de mulheres que me encantam, seja no talento, originalidade, personalidade, algo que destaque. E tenho as minhas “fases” de musas, a de agora é Thalma de Freitas. Estive em fases : Céu, Billie Holiday, Nina Simone, Cat Power, Piaf, Cecília Meireles, Audrey Hepburn, Sophia Loren , Frida Kahlo, Elis Regina, Angelina Jolie, Ella Fitzgerald entre outras.
Confesso que não gostava muito da Thalma. Achava antipática, sempre falava “aquela atriz que agora canta”. Foi aos poucos, fui gostando dos seus projetos, da galera que juntamente,começou a destilar sua criatividade, da Orquestra Imperial, Otto, 3 na Massa, em outras várias aparições na televisão, em desfiles de moda, a menina estava presente. Seu nome começou a ficar associado a coisas legais, bem legais e como tem personalidade forte, deixa sua marca onde aparece.
Sei que cai nos encantos. Ela é linda, estilosa e faz uma música bacana, bem bacana.
Filha de maestro, cantarola desde tempos, chega com um charme, uma segurança e seus vestidos coloridos e cabelos descolados que valorizam a beleza nítida de Thalma. Por agora ando escutando muito sua suavidade sonora e estou gostando.

No momento a nova musa.


jukebox: Seres Tupy - Lua e Lenine


J.M

Margaret Mee



Artista plástica e botânica, a inglesa Margaret Mee (1909-1988) tem seu centenário de nascimento comemorado na Pinacoteca. Cerca de 100 peças compõem a retrospectiva, dividida entre desenhos e aquarelas, objetos indígenas, diários e cadernos de viagem nos quais ela documentava seu minucioso método de pesquisa. Formada em pintura e design em 1950, Margaret chegou a São Paulo dois anos depois para estudar a natureza. Logo ficou deslumbrada com o que viu e, em 1958, passou a trabalhar no Instituto de Botânica. A princípio, retratou a Mata Atlântica no entorno da cidade; depois, dedicou-se à flora da Amazônia, sua grande paixão. Nas quinze viagens que fez à região – foi a primeira mulher a escalar o Pico da Neblina –, reproduziu no papel as mais diversas espécies de plantas tropicais. Tinha um carinho especial pelas bromélias, presentes em algumas das 59 aquarelas da mostra. Difícil não se encantar diante da riqueza de detalhes capturados pela artista em seus belos e delicados traços.

Pinacoteca do Estado. Praça da Luz, Metrô Luz. Até 15 de março.


Jukebox



Dossiê Rê Bordosa


Fama? Ego inflado? Espírito de porco? Quais os reais motivos que levaram Angeli a matar Rê Bordosa, sua mais famosa criação? Documentário fictício sobre o assassinato da mais famosa personagem underground dos anos 80 do cartunista.

Curta de animação em stop-motion muito legal. Como fã das tiras de Angeli, gostei do vídeo, engraçado e muito bem feito. Com direção de César Cabral, numa narrativa investigativa, cheio de entrevistas e declarações do próprio Angeli. O filme têm momentos de encontro do real e da ficção dentro desse universo das Hq's.

Só assistindo! muito bom, e premiado!


Massa!


J.M

Téo e a gaivota

todos os encontros todos os poemas
manda me avisar

todos os embates todos os dilemas
manda me avisarmanda me avisar
eu sei
todo ser humano
pode ser um anjo

Marcelo Camelo

Se todo ser humano pode ser um anjo eu já tenho o meu

J.M

Houve uma vez dois verões


sábado, 21 de fevereiro de 2009

Saudosismo

Ta aí um filme que eu gostaria de ter participado da criação do roteiro e de ter dirigido: Chega de Saudade. Não é sempre, mas algumas vezes quando termino de ver um filme tenho essa sensação de: “ Queria ter feito esse filme”. O de agora foi esse brasileiro, dirigido pela Laís Bodanzky com roteiro de Luiz Bolognesi. O projeto é fruto de mais de quatro anos de produção e pesquisa sobre o universo e os personagens dos salões.
Gostei bastante do trampo da Laís já em “Bicho de sete cabeças”, o que se repete em Chega de Saudade. Bom roteiro, narração, montagem, direção. Um jeito de conduzir a câmera, o foco e a fotografia.

Legal, delicado, imprevissível e real na medita certa.

Tudo ambientado numa casa noturna dos amantes de dança de salão. A trilha sonora está absurdamente boa, Elza Soares, divina com seu vozeirão que ecoa nas cenas adentro. “Você não vale nada, mas eu gosto de você”, refrão que gruda na cabeça. Um filme gostoso de ver e ouvir.
A história acontece em uma noite de baile, em um clube de dança em São Paulo, acompanhando os dramas e alegrias de cinco núcleos de personagens freqüentadores do baile. A trama começa ainda com a luz do sol, quando o salão abre suas portas, e termina ao final do baile, pouco antes da meia-noite, quando o último freqüentador desce a escada. Mesclando comédia e drama, Chega de Saudade aborda o amor, a solidão, a traição e o desejo, num clima de muita música e dança.
O elenco conta com grandes nomes como Tônia Carrero, Leonardo Villar, Betty Faria, Cássia Kiss, Stephan Nercessian, Paulo Vilhena, Maria Flor, Jorge Loredo ( o incrível Zé Bonitinho), entre outros.

A vida pulsante dos salões de baile.


J.M


Siba e a Fuloresta

Kino Cine

Raimundo Nonato foi para a cidade grande na esperança de ter uma vida melhor. Contratado como faxineiro em um bar, logo ele descobre que possui um talento nato para a cozinha. Com suas coxinhas Raimundo transforma o bar num sucesso. Giovanni , o dono de um conhecido restaurante italiano da região, o contrata como assistente de cozinheiro. A cozinha italiana é uma grande descoberta para Raimundo, que passa também a ter uma casa, roupas melhores, relacionamentos sociais e um amor: a prostituta Iria. Por uma talvez "ironia" do destino, Nonato vai parar na prisão, fica conhecido como "Alecrim", e também faz o maior sucesso com suas comidas em meio a celas. O filme é uma parceria de co-produção Brasil-Itália, fica nítido. Apesar do uso abusivo de palavrões no decorrer das cenas, muito "caralho, porra, merda" o tempo todo, Estômago vale a pena, muito legal, e bem crítico. As cenas com as comidas fazem salivar. Direção assumida pelo Marcos Jorge e conta no elenco com o ótimo João Miguel ( Cinema, Aspirinas e Urubus), que eu adoro, e a participação de Paulo Miklos, que depois de "O invasor" ganhou seu mérito como ator, pelo menos para mim. Muito bom.

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Vertigo!O meu preferido do Hitchcock! Maestral esse filme, todo o clima de suspense, como se fosse uma teia que Hitchcock faz é instigante. Uma história de amor bem sombria. Em São Francisco, um detetive aposentado que sofre de um terrível medo de alturas é encarregado de vigiar uma mulher com possíveis tendências suicidas, até que algo estranho acontece nesta missão. Paixão, mistério e muito suspense, sem contar as cenas geniais de delírio do detetive vivido por James Stewart. Adoro esse filme, um final que arrepia a espinha. Sem contar que Kim Novak foi a segunda opção para o papel do diretor, que dizia que a musa só conseguia interpretar quando estava morena ( já no meio do filme).No mínimo um filme assombroso.




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Era da Inocência. Em seus sonhos um homem se vê como uma grande estrela . Um cavaleiro valente, uma estrela dos palcos, um artista que vive com mulheres a seus pés e em sua cama. Resolve levar essa fantasia para os dias atuais, como se tudo fosse um filme, mas na vida real é um cidadão comum. Seu trabalho é ouvir pacientemente pessoas que chegam a seu departamento procurando ajuda. Em casa, sua mulher está muito ocupada para prestar atenção nele e suas filhas adolescentes não lhe dão a mínima, vive um cotidiano medíocre. Dirigido por Denys Arcand, o mesmo do "O Declínio do Império Americano"e o incrível "As Invasões Bárbaras". Com um humor bem crítico, uma boa pedida.
J.M

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

É de fazer chorar


O sol queimava a pele. A tarde durava, marcava 16:35. Eu continuava sentada naquela cadeira de madeira, mesa idem na frente do boteco mais charmoso do bairro. Meus óculos escuros corriam para frente do rosto quando o suor deslizava seu líquido nas narinas da minha pele fresca.
O cabelo preso entre meus dedos na esperança de uma brisa seguir na nuca, quase impossível. O guardanapo que ficava solto quando eu pegava o copo de cerveja nem mexia, sem nenhum vento.
De dentro do bar saia o som mais lírico e narrativo da voz de Fred04, meus olhos se fechavam no delírio daquela música declamada nos meus ouvidos. A cerveja acabou e deixei Fred cantarolando para outros poetas que chegavam ao local.
Me deparei com uma ladeira estreita, dessas bem comuns em Olinda. Passei as mãos sobre os cabelos, num gesto de charme, ajeitava meu vestido que dançava solto no corpo mostrando as pernas, segurei-o entre as coxas para não levantar, agora o vento resolveu chegar. Enquanto subia, ria sozinha, a felicidade de estar num lugar tão lindo e desconhecido me fascinava.
No alto da ladeira via a cidade, o mar no fundo e todo aquele cheiro de folia que quase dava para tocar. Preparei a máquina, nessas horas uso a analógica com filme preto e branco. Abre, fecha, foca e :

“- Acho que vai ficar escuro, dá um passo para atrás”.

Mirei na direção do desconhecido, o sol batia na minha cara, tirei os enormes óculos e encarei aqueles olhos azuis que faiscavam e um sorriso de gentileza que me encantou.
“ Ah, verdade, vou tentar daqui”, sorri timidamente. Homens bonitos me deixam sem graça. Ele continuou ali parado me olhando. Perguntei se gostava de fotografia, disse que sim, que tinha feito vários ensaios nas ruelas de Olinda, principalmente no carnaval, adorava aquele colorido, o jeito que a foto falava.
O papo rendeu, tinha boa prosa o pernambucano. Lindo e boa gente, que sorte de desconhecido a minha. O filme estava quase no fim quando ele me pediu para tirar umas fotos minhas no meio daquele cenário de casarões antigos. Justo eu que odeio pousar para foto. Cedi sem bancar a durona. Com o objeto em mãos virei a musa até o “clack” soar e as imagens gravadas começarem a rodar.
“Você é linda”, ele falou.

Fiquei sem reação, quando o clima foi invadido por uma barulheira e uma movimentação de pessoas que pareciam estar escondidas esperando a hora de entrar. Era a Orquestra de Frevo, seus dançarinos e foliões que pintavam com tudo no alto da ladeira.
O empurra- empurra era tão grande que achei que o tinha perdido de vista. Foi quando senti suas mãos me apertando o braço, seu corpo me abraçando , sua boca grudou no meu ouvido e sussurrou “ Vem por aqui”. De mãos dadas, ele andando na frente, abrindo o labirinto de corpos, risadas e euforia, parecia que sabia o caminho, me senti segura. Foi tão rápido, em minutos a multidão não se misturava mais com a gente.
Me dei conta que era noite e estava só eu e ele, e algumas pessoas que caminhavam tranquilamente. As luzes dos postes começavam a acender, ainda fracas. Só deu tempo de olhar em seus olhos , sua mão segurou meu rosto e sua boca encontrava na minha.
O beijo e os braços se perdendo nas minhas costas, me pondo contra seu peito com força duraram o suficiente para ficarmos ilhados num silêncio hipnotizante e único daquele momento.
Beijo bom, lindo e boa gente; que sorte de desconhecido a minha.

Nem tinha reparado como o tempo passou , lembrei que tinha marcado de encontrar minha turma para fazer um esquenta naquela última noite de carnaval.
Ele me acompanhou até o hotel, o papo ainda rolava, me deu mais um de seus beijos, ficamos testa com testa abraçados por um tempo, “Como é bonito” pensei. Ele repetiu “Você é linda”. Mais um beijo e “Até”.

Agora acordo ainda cansada da noitada anterior. O quarto está todo claro,me espreguiço em meio aos lençóis, na cama que é toda minha. Deve ser hora do almoço. Coloco apenas um shorts jeans que estava em cima da cadeira, já que tinha dormido só com uma regata, pego uma garrafa d'gua, abro a sacada e uma nova trupe de frevo vai passando, com ainda um bocado de amantes que não querem terminar toda aquela festa.

“Ôh quarta-feira ingrata chega tão depressa só pra contrariar”, todos cantam.


Todo mundo tem um amor de carnaval.
Júlia
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Crônicas de uma festa que passou

Jukebox: War – Fred04 e Holly/ Apollo Nove





samba e amor

Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã

Escuto a correria da cidade que arde
E apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente 'inda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna, a nossa cama reclama
Do nosso eterno espreguiçar
No colo da bem vinda companheira
No corpo do bendito violão


Buarque

e tudo passa


Para todos aqueles que acham que o amor é fugaz, áspero, passageiro, sem importância e desnecessário para se acreditar.

Ele embriaga, amortece, corrói, estimula numa imprevisibilidade de um solo de jazz. Aquece a alma, arrepia a espinha, abre um sorriso e não disfarça o olhar.

Para todos aqueles que estão dispostos a gritar “eu te amo” no meio da rua, que perdem o sono e sentem a melhor sensação de bem-estar quando olham para quem está dormindo ao lado, que já sentiu uma saudade que invade o peito e tira o ar, que já ficou no silêncio de dois, pois naquele momento as palavras não precisavam existir. Para quem já se aventurou numa viagem, sem roteiro fixo, fazendo o que dava na cabeça e terminava o dia em meio a abraços num interminável pôr-do-sol. Para todos aqueles que querem conjugar esse amar.

Por ter entrado abstratamente na minha vida. Pelos sonhos e alegrias sinuosas no encontro do acaso. A euforia imediata de ouvir a voz e esbarrar na paisagem imaginada. Por misturar sentimento e sentido, por eu ter percebido que a felicidade mora ao lado.

E que o tempo passa muito rápido, e nem nos damos conta do que estava por vir.

Obrigada pelo sorriso mais bonito de uma terça-feira que ventava de bagunçar os cabelos e o céu se cobria num cinza que parecia que um porre iria desabar a qualquer momento. Derrepente tudo clareou, o vento parou, o laranja pintou em cima dos olhos, começou a escurecer e você apareceu.

Obrigada pela despedida, do meu desejo de ter visto seus olhos posarem novamente nos meus. Obrigada pela felicidade ao te ver e por você ter me feito sentir um bambear de pernas toda vez que nos via-mos.

Encontro. O tempo passa rápido e nada é por acaso, e você foi o acaso mais gostoso de sentir.
Agora você vai embora. Leva sempre esse sorriso que te abre o mundo.

Meu acaso mais gostoso de sentir, só meu.

“ E você sumiu no mundo sem me avisar,
Agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim.”

Buarque

Chico, sempre ele.

Jukebox: Che Bandoneón - Orquesta Típica Fernadez Fierro

Júlia ( ainda está em tempo de tudo mudar).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Rec-beat/ Orquesta Típica Fernadez Fierro


Rec-Beat, programação alternativa simultânea com o carnaval da terrinha!
Promovendo uma ponte entre o Carnaval do Recife e a música do mundo, o Festival Rec-Beat chega à sua 14ª edição cada vez mais antenado. Um leque de opções de ritmos e estilos se abre neste festival, que cresce de tamanho e importância a cada ano. Entre os dias 21 e 24 de fevereiro, o Cais da Alfândega, nas margens do Rio Capibaribe, no Recife Antigo, novamente será palco do evento, atraindo a atenção de mais de 20 mil pessoas por noite para prestigiar as apresentações.

Atrações: Desorden Público (Venezuela), Bomba Estereo (Colômbia), Original Hamster (Chile), Nuages (Equador) ,Giovanna (Uruguai) , Clay Ross (EUA), Wyza (Angola), Afrika Bambaataa, Eddie, Catarina Dee Jah, João do Morro, Ska Maria Pastora, Burro Morto, Camarones Orquestra Guitarrística, Vitor Araújo Trio, Sílvia Machete, DJ Dolores, Junio Barreto, River Raid, Dixie Square Band, e claro, para fechar com chave de ouro o Rec-Beat deste ano, o festival realiza uma homenagem a uma de suas atrações mais especiais. O Cordel do Fogo Encantado teve sua estréia ao vivo no palco do Rec-Beat há dez anos, as apresentações da banda surpreendem a todos não somente pela força da mistura sonora ousada de instrumentos percussivos como pela harmonia do violão raiz somado aos versos declamados por Lirinha.

Massa por demais, só em Recife para ter tanta diversidade cultural, tudo junto e misturado!

O melhor, tudo de graça!


Amo Pernambuco!
...........
Pela terceira vez consecutiva, a Orquesta Típica Fernadez Fierro se apresentará no Auditório Ibirapuera, desta vez junto com Arbolito como grupo convidado, duas bandas em ascensão que cativaram o público jovem. Os caminhos da Orquesta Típica Fernadez Fierro e Arbolito não se cruzaram casualmente. As duas bandas, uma de tango e a outra de folclore misturada com rock, estão há vários anos no caminho da independência e se transformaram nas bandas mais “ascendentes” da música popular argentina.

Dias: 27, 28 e 01/03
Horários: Sexta, 21h Sábado, 21h Domingo, 19h
Local : Auditório Ibirapuera
.....
Som de doer de tão bom! Imperdivél !
J.M

Ciranda de Maluco


Já apertaram o botão da folia
Terreno de alegoria maior
E as avenidas já fervendo suadas
Que gigante tentação enfeitada

Carnaval vem sempre
Vai tremer a terra
Pra tremer a terra
Carnaval vem sempre

E no meio do tudo
Seu pecado lhe encontra
Solto na buraqueira Olinda-Recife
De ponte pula
Sobe e desce ladeira

Sem cair/ mestre-chão


Todos os vulcões já querendo entrar em erupção
Carnaval tem sempre pra tremer a terra
Frevo aí, trava a perna aí

Nação Zumbi


Récife, melhor carnaval!


fotos - http://www.flickr.com/maxlevay , que olhar!


J.M

Mel issa

Ah! Eu quero!

Vik Muniz

Erykah Badu


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Os anti-heróis, as vozes do canavial

"O canavial não está tão longe quanto parece : ao encher o tanque com 49 litros de álcool, consome-se uma tonelda de cana;quando se adoça com açucar o café da manhã, milhares de brasileiros já estão na lavoura de facão na mão."

É quando o sol tá forte, o calor arrepia o corpo e olhos apertam no suor quase sem ar. É quando o trabalho chama para recomeçar.

O outro lado

Os anti-heróis , as vozes do canavial.

Trampo!Já deu a hora de vestir essa camisa!

J.M

Paco de Lúcia


Antología

1- Zyryab
2-Guajiras De Lucía
3-Cobre
4-Monasterio De Sal
5-Caña De Azúcar
6-Barrio De Viña
7-Tio Sabas
8-La Barrosa
9-La Cueva Del Gato
10-Chiquito
11-En La Caleta
12-Entre Dos Aguas
13-Aranjuez

Amo! Achado aqui em casa, um álbum incrível dele Paco de Lúcia, o cara. Seus violões flamencos são uma viagem, eu amo! Declaradamente apaixonada por toda a cultura flamenca, dança, ritmo e música. É de fazer chorar uma roda com esse violão gritando sua poesia! Amo.

J.M

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Cérebro Eletrônico


E se eu me vestisse de Carmem Miranda
Se eu estreasse cantando A Banda
Se eu escutasse o que a vovó dizia
Rezava um pai nosso e uma ave

Eu vou me atirar na orgia, eu vou
Me jogar, me jogar
Eu vou me atirar na orgia e só
Acordar depois do meio dia

Se todo o corpo que cresce, perece
Parece que eu me apaixonei pelo nada
Que nada, que nada, ela veio da nada
E com tudo se jogou

Cérebro Eletrônico

amo, amas, amamos

-Você me ama?
-Claro que amo.
-Muito?
-Muito.
-De que tamanho?
-Enorme.
-Será que eu vou? Posso desistir.
-Não, de jeito nenhum.
-É, passa rápido.
-Muito.
-Olha, acho que somos o único casal se despedindo. Todo mundo chega sozinho aqui e entra depressa no embarque, apressado.
- Verdade. Temos um ao outro, sempre.
-Me abraça forte?

...

- “Atenção Senhores passageiros, embarque imediato do vôo 1248.”
-Amor, melhor eu ir.
-Te amo.
-Eu também te amo, muito.
-Passa rápido.
-Eu sei.
- Tchau.
- Tchau.
- Quer alguma coisa de Deli?
- Ah, mais um enfeite de elefante para minha coleção.
- Te amo.
-Te amo.

J.M

cine doc

semioticamente

Estava andando na rua, sozinho, rumo a orla, tudo que desejava naquele momento era um mergulho no mar. Dizem que as águas salgadas curam tudo, não é?
Tudo estava vazio, as avenidas sem ninguém, sem carros, tudo fechado, muito estranho; principalmente porque era a hora do almoço e não esbarrava com nenhuma pessoa ou rosto conhecido no meu caminho. Na praia, a mesma situação, nada por perto.
Tirei os chinelos, entrei no mar, um mergulho que enchia a minha cabeça de silêncio absoluto. Derrepente abri os olhos, e enxerguei os carros, sofás, malas, vi logo adiante meus amigos, sentados numa espécie de boteco, tudo em baixo d'agua . Que maluquice era essa? Respirava normalmente naquela imensidão azul, e me familiarizava com aquela vida no fundo do mar. Meus amigos em volta de peixes, dando risada, tomando uma gelada e até o seu Joaquim, o garçom que sempre trazia uma saideira de graça para turma estava por lá. Muito louco.
Decidi dar uma olhada na superfície para ver como a cidade estava, se tudo aquilo não passava de uma alucinação da minha mente, pô será que ainda estava bêbado?
Nadei, chegando não conseguia sair da água, como se tivesse um vidro que impedisse de colocar a cabeça para fora.
Bati, soquei e nada. Nesse momento uma agonia tomou conta de mim, uma sensação claustofobica, agora já me faltava ar, não conseguia respirar.
No meio de tudo isso escuto a voz da minha filha, me chamando. “- Acorda, acorda pai”.
Estava deitado no sofá da sala, todo suado e com uma sensação boa de ter sido apenas um sonho.
Marina saia para a escola no colo da mãe, naquele instante veio me dar um beijo. Ainda era cedo, os raios do sol começavam a chamar atenção. Não consegui mais pregar os olhos, perdi o sono.
O cansaço no decorrer do dia era notável,minha mulher disse que parecia um alienado ( elas adoram esse tipo de comentário) disse que não, que tinha cordado muito cedo naquela manhã.


J.M

Cordel





Ideia fantasticamente foda! Genial demais para passar despercebida. Escritores e ilustradores nordestinos adaptaram grandes clássicos da literatura para a linguagem do Cordel. Que lindo! E nesse formato ainda vem mais por aí!
Clássicos em Cordel - Editora Nova Alexandria.
Quero todos!
J.M

In utero


Engraçado, hoje me deparei com muitas mulheres estranhas. Leia- se estranhas no significado : Mulheres- estranhas, uma espécie muito comum na natureza carnívora humana, andam sempre em grupo, adoram uma boa fofoca ( principalmente se o alvo está por perto), se enchem de auto-confiança ( nem sempre verdadeiro), têm atitudes desnecessárias, são críticas, sádicas, sociáveis, falam alto e sempre tentam puxar assunto com você, mesmo você ignorando. Adoram crianças.


Jésus me dê a indiferença de cada dia ( para com essas pessoas)!


J.M